21 de janeiro de 2021

Conversa

                                        
Queria conversa...
Mas ninguém ma deu
e tinha uma horinha para conversar.
 
Na segunda-feira fui daqui práli,
aterrei na terça como Prometeu
e meti a quarta só para trabalhar.
Na quinta o rosário foi que nem dormi
e na sexta-feira faltou a paciência.
Só que na segunda encontrei o João
e nem tempo tive para o escutar.
A Teresa ligou-me, após uma ausência,
e não atendi, fiquei com a gravação.
O Luís e a Rosa queriam discutir,
esquivei-me deles, nem liguei à mãe.
Só à noite, um pouco, dei certa atenção
aos emails e redes pra descontrair.
Fraca companhia fui eu para alguém.
 
Mas apesar disso queria conversa!
Queria conversa que ninguém me deu
e tinha uma horinha para conversar...
Olhei para mim e saquei da caneta:
"Ai tu queres conversa? Então dou-ta eu!"

By: Ela própria num dia em que queria conversa

17 de abril de 2020

O X marca o tesouro

       “Oh diabo! Como é que tinha chegado àquela situação?

Uma cantilena antiga ecoou-lhe na memória: “Chico-penico! Chico-penico!”

… Vinha do recreio e das ruas, de quando os outros putos queriam vê-lo espumar. Chiquinho era um miúdo franzino, com uma força na guelra que só mais tarde lhe chegaria aos braços. Dava gozo espicaçá-lo!

Só que, no salto da idade, o “Chico-penico” cresceu em “Xicão”, adotando um X, mais estiloso. Impulsivo, chamavam-no para impor respeito e apartar confusões. Por isso vivera muitas, tantas que o corpo parecia um álbum fotográfico, acumulado de marcas. Mas o álbum foi-se esgotando, como uma caderneta de cromos gasta. 

Assim, sem confessar, ficou agradecido quando o puto “Marquito” por acaso cresceu para se chamar “Marcão” e ele pode finalmente passar a ser o “Sr. Francisco”.

O trabalho que o deixava ser “Sr. Francisco” surgira como tudo na vida. Alguém precisava de qualquer coisa e ele reagia, sem pensar. 

Francisco tinha jeito para motas, souberam disso e chamaram-no. Depois aprendeu o resto. Só a partir de então tomara a vida nas mãos: escolhera uma casa, escolhera a mulher, escolhera a igreja, a paz e o sossego. Por consequência chegaram-lhe contas, filhos, sermões, achaques e dores nas costas.

Agora porém, à saída da oficina, espantava-se com a visão da dianteira do carro, fumegante, espetada na lateral do automóvel de um cliente. 

O tipo tinha-o xingado de “Xico-esperto”… e Francisco avaliava-se pela primeira vez: “Oh diabo! Seria possível alguém mudar? Ou só mudavam as circunstâncias e aquilo que nos deixavam ser?


20 de julho de 2019

Oh! Uma ode à falta de inspiração.

Oh!

Uma ode à falta de inspiração.

Era uma vez… um nariz

narinas abertas e o aroma

um café com adoçante

Bica na bandeja

Baloiça a Bica

Baloiça… Balancé… no baile

O baloiço da bica… é impossível sem derramar café.

Bicos de pássaros

bicadas e beijos, abraços

Breves… Borboletas

Um… bi(li)ca(l)

De umbigo em piruetas

e enquanto fui ali… não estava cá

Romeira, romeira… onde andas tu?

À rasca, arisca… (à)risca

Embate!

Decidi começar-te cheia de intenções e reticências!

Mas são tão díspares que hoje ficarei apenas a olhar-te.

Aí o raio da multiplicidade!

O que é que se faz com

Truz… truz e mais onomatopeias?

Bato à porta

da casinha de bonecas

Quem é?

Diz...

Farsa!

Um bom nome para começar um blog em noite de carnaval


23.02.2009, Coimbra

12 de setembro de 2018

Entrelinhas

Gosto tanto de ti!

Gosto tanto de ti,

Gosto tanto de ti.

Ainda gosto tanto de ti

que só o tempo me pode acalmar…

Gosto tanto de ti,

só o tempo deixará passar…

Gosto tanto de ti,

só o tempo deixará…

Gosto tanto de ti,

só o tempo…

Gosto tanto de ti.

Só…

Gosto tanto de ti

 

Aguardo o dia em que o tempo

já escorreu das entrelinhas.

O dia em que serenamente

ainda goste tanto de ti

...

mas aí.

 

12.09.2018

1 de setembro de 2017

Chico-espertos do Catrino


Lá vai um, lá vão dois,
três Chico-espertos a passar.
Um travou-te, outro tramou-te
e o outro está-te a roubar.

Já basta de Chico-espertos
são uma praga Nacional.
É urgente abrir a caça
ao infestante animal!
Discretos, como a carraça,
assumem muitos formatos,
e ao sair dos buracos
de todos fazem pirraça
por entre ardis e boatos.

Com pressa, a ziguezaguear
o esperto faz-se à estrada
a acelerar, prego a fundo,
não espera, que se enfada,
acha que é dono do mundo!
Mas caem luzes vermelhas,
ouvem-se os pneus a chiar.
“Estou rodeado de aselhas!”
- começa o Chico a gritar.

Lá vai um, lá vão dois,
três Chico-espertos a passar.
Um travou-te, outro tramou-te
e o outro está-te a roubar.

Autoditada na lábia
de uma moral muito dúbia,
o Chico adere ao partido
para cultivar “amizades”.
Depois aguarda o devido
curso, cargo ou facilidades.
Nascido de olho aberto
para a lei do menor esforço
desconhece o que é remorso.

Acha estranho que alguém
não faça o que mais convém
por ter noção da justiça.
- “Esse aí tem é preguiça”!
Porque ele está bem de manha,
da cobra até vende a banha!
Mas por entre os favorzinhos
e os malabares do umbigo,
não se lhe conta um amigo.

Lá vai um, lá vão dois,
Três Chico-espertos a passar.
Um travou-te, outro tramou-te
e o outro está-te a roubar.

Um gestorzinho ambicioso
perito da arte estatística
forjou um parecer danoso
sem se achar um vigarista.
Este esperto é perigoso,
faz dos números joguete
e distorce a realidade.
Mas desde que se abolete,
quem saberá a verdade?

Tiveste azar Chico-esperto,
alguém topou a tua mão.
“Os dados não batem certo!
Este gajo é um aldrabão!”
Podes ficar boquiaberto.
Nem todo o teu ar janota
as luvas ou o palavreado
ocultaram a batota.
Estás aqui, estás enjaulado! 

Lá vai um, lá vão dois,
três Chico-espertos a passar.
Um travou-te, outro tramou-te
e o outro está-te a roubar.

25 de junho de 2017

Lenga longa Summer Fest e a Balada do Fogo posto



Lenga longa Summer Fest
e a Balada do Fogo posto

˗ A vida andava parada, lá onde ninguém a quer,
Qual Judas perdi as botas e abandonou-me a mulher.
Andava bem cabisbaixo sozinho a roçar o pasto
em terras mal-amanhadas, que mais não tinha pró gasto.
Cuidar de ovelhas e cabras, ir à lenha, um trabalhão,
por acidente a queimada escapou-se-me e fez clarão.
Vieram gentes aos gritos com as mangueiras na mão
e inaugurei uma moda, um Festival de Verão!

Era uma vez um país 
com incêndios no Verão 
e estava sempre a dizer: É Verão está tudo a arder! (2x)

Chamaram os Voluntários pra vir apagar o fogo.
Os Voluntários apagam o fogo
e o fogo regressa no Verão.
E o país sempre a dizer: É Verão está tudo a arder!

Chamaram a Aviação prá ajudar os Voluntários
mas o  avião só faz combate
e as matas estão desordenadas
e os Voluntários apagam o fogo
e o fogo regressa no Verão.
E o país sempre a dizer: É Verão está tudo a arder!

Encomendaram Estudos prá ajudar à protecção
e os Estudos falam de prevenção
nos campos agora abandonados
 e o avião só faz combate
e as matas estão desordenadas
e os Voluntários apagam o fogo
e o fogo regressa no Verão.
E o país sempre a dizer: É Verão está tudo a arder! (2x)

˗ Vem comigo Aurora Ruiva ao Festival do Verão
que eu quero ver-te rosada no decorrer da estação.
Eu agarro no isqueiro e vou vingar-me afinal.
Vêm sirenes e bombeiros numa orquestra teatral.
Enchemos matos desertos com coros de aflitos
ouvimos estalar a terra por entre chamas e gritos.
Ai gosto tanto de vê-los com a mangueira na mão!
Vem comigo Aurora Ruiva ao Festival do Verão.

Era uma vez um país 
com incêndios no Verão
e estava sempre a dizer: É Verão está tudo a arder!(2x)

Chamaram homens de lei para aplicar os Estudos 
e os homens criam várias Leis
mas as Leis não saem do papel
e os Estudos falam da prevenção
e os campos estão abandonados
 e o avião só faz combate
e as matas estão desordenadas
e os Voluntários apagam o fogo
e o fogo regressa no Verão.
E o país sempre a dizer: É Verão está tudo a arder! 

Chamaram poderes locais prá aplicar a nova Lei
mas muita floresta é privada
e não há um cadastro nacional
e as Leis não saem do papel
e os Estudos falam da prevenção
e os campos estão abandonados
 e o avião só faz combate
e as matas estão desordenadas
e os Voluntários apagam o fogo
e o fogo regressa no Verão.
E o país sempre a dizer: É Verão está tudo a arder! 

Chamaram Quadros de Apoio para a rearborização
 e os Apoios vieram da Europa
e não foram bem fiscalizados
e falta um cadastro nacional
e as Leis não saem do papel
e os Estudos falam da prevenção
e os campos estão abandonados
 e o avião só faz combate
e as matas estão desordenadas
e os Voluntários apagam o fogo
e o fogo regressa no Verão.
E o país sempre a dizer: É Verão está tudo a arder! (2x)

- O cartaz já está fechado para o novo Summer Fest
vira o disco e toca o mesmo, que todo o tema é silvestre.
Há giestais renovados e o vento quente assobia,
helicópteros e aviões dão mais ritmo à cantoria.
E a cada ano que passa vivo mais a adrenalina
pois se antes eu quis vingança agora acho que é sina.
Vem comigo Lua Nova ao Festival do meu Verão.
Ai gosto tanto de ver-te com a mangueira na mão!

Era uma vez um país
com incêndios no Verão
e estava sempre a dizer: É Verão está tudo a arder! (2x)

Chamaram os Sapadores com ajuda dos Apoios
e os Sapadores fazem prevenção
mas o financiamento é limitado
e os Apoios não são fiscalizados
e falta um cadastro nacional
e as Leis não saem do papel
e os Estudos falam da prevenção
e os campos estão abandonados
 e o avião só faz combate
e as matas estão desordenadas
e os Voluntários apagam o fogo
e o fogo regressa no Verão.
E o país sempre a dizer: É Verão está tudo a arder! 

Chamaram os Penalistas pra punir incendiários
e o fogo pode levar à prisão
mas ainda é um bom negócio
e os Sapadores foram limitados
e os Apoios não são fiscalizados
e falta um cadastro nacional
e as Leis não saem do papel
e os Estudos falam da prevenção
e os campos estão abandonados
 e o avião só faz combate
e as matas estão desordenadas
e os Voluntários apagam o fogo
e o fogo regressa no Verão.
E o país sempre a dizer: É Verão está tudo a arder! (2x)

˗ Fui preso, saí a tempo e retornei ao trabalho,
angariei mais clientes, bulo por gosto e não falho.
E podem tentar parar-me, que pouco vai resultar,
se não for eu vai ser outro, é o dinheiro a mandar.
Mas vem comigo, amor novo, para mais um festival
De olhos raiados de lume atiças-me ao matagal.
Tu agarras-te à mangueira e eu acendo o clarão.
Vem comigo Íris Chama ao Festival do meu Verão.

Era uma vez um país
com incêndios no Verão
e estava sempre a dizer: É Verão está tudo a arder! (2x)

Chamaram a Administração prá articular Institutos
e o ICNF faz campanhas
mas a execução é criticada
e o fogo não é mau negócio
e os Sapadores foram limitados
e os Apoios não são fiscalizados
e falta um cadastro nacional
e as Leis não saem do papel
e os Estudos falam da prevenção
e os campos estão abandonados
 e  o avião só faz combate
e as matas estão desordenadas
e os Voluntários apagam o fogo
e o fogo regressa no Verão.
E o país sempre a dizer: É Verão está tudo a arder!
E depois pôs-se a gritarQuando é que isto vai mudar?

Levantou-se o Parlamento prá acudir à voz do povo
e o Parlamento ditou sugestões
diretamente para uma gaveta
e o ICNF é criticado
e o fogo não é mau negócio
e os Sapadores foram limitados
e os Apoios não são fiscalizados
e falta um cadastro nacional
e as Leis não saem do papel
e os Estudos falam da prevenção
e os campos estão abandonados
 e o avião só faz combate
e as matas estão desordenadas
e os Voluntários apagam o fogo
e o fogo regressa no Verão.
E o país sempre a dizer: É Verão está tudo a arder! (2x)

- Voltámos ao mês de agosto, regressou a lenga-lenga,
O cuco não queria couves numa tarde solarenga,
E este país grita: Pára! Mas padece de molenga.
Vão bradar por comissões para repensar soluções
e esquecer-se de ir a campo executar convicções
pois em meados do ciclo volta-se atrás em desnorte
que a lenga-lenga do cuco só terminou com a morte.
Vem comigo Morte amiga às plantações do carvão
São a tradição mais longa dos Festivais de Verão!

Agosto de 2016

Esta junção de textos foi escrita no final de agosto do ano passado, quando mais uma vez a minha Trêmoa esteve em perigo de arder e se safou por um triz... não a publiquei aqui nessa altura na esperança, sempre renovada, de que já não fosse necessário e de que este inverno fosse diferente, com modificações e políticas mais interventivas no terreno. 
Mas todos os anos a lenga-lenga de verão se repete... infelizmente este ano começou em Junho e foi mais trágica em mortes do que costuma ser. Infelizmente o tema dos incêndios e da falta de planeamento e ordenamento florestal continua a amedrontar-me. Infelizmente continuo a sentir-me revoltada com tanta inércia e dificuldade em implementar mudanças. 
Desta vez, pelo menos aparentemente, o acontecimento que despoletou a tragédia em Pedrógão Grande e depois em Góis foi natural... mas há outras causas. São conjunturais e estruturais e estão mais que identificadas sem que se consiga modificá-las há anos. Para quando dar a devida atenção, necessária me prática, ao reordenamento territorial e florestal? Para quando dar a devida atenção, necessariamente de proximidade e de terreno, à prevenção de incêndios? As modificações climáticas não desaparecem quando chega o outono. A desertificação do interior e as mudanças nas atividades primárias não vão parar se fecharmos os olhos e assobiarmos para o lado. 
Este inverno foi particularmente seco, ainda estamos em Junho e o verão anuncia-se muito quente... é pois com o espírito alerta que endureço o coração, apreensivo, e me tento preparar mentalmente para os próximos meses...

8 de julho de 2016

Arqueóloga ou esteticista (Fragmentos da Feminil...Idade XIII)

 

Arqueóloga ou Esteticista

 

No pino do sol a luz deflecte no calcário.

O calor sobe em sombra azul na parede

e envolve os destroços acima da cota

de dois andares esventrados de piso.

Restos de tijolo burro cruzado,

pedras brancas,

Paredes no chão, canos e pregos.

 

Argamassas e destroços da

desconjuntura do belo,

que um dia foi.

Do razoável,

que se foi.

Do obsoleto,

que era.

Da ruína

que é.

 

       Ar denso e branco do pó da cal com areia,

         dos ligantes de terra, amarela e vermelha.

                Muco e sangue patrimoniais na maca,

                na cirurgia brusca da retroescavadora,

                do músculo pneumático e da marreta.

                                  A arqueóloga colige dados

                                           não resgata a estética.

17 de agosto de 2015

Desen...Canto


Canto o desencontro...
dos pés...
sustendo as pernas a passo,
tacteando as nervuras do chão,
e que alongados no espaço
me riscam a direcção.
E se de algum eu me esqueço,
para evitar um tropeço
contorcem-se sobre a calçada,
mantendo-me equilibrada.

Canto o desenlace
das mãos…
pelos braços articuladas
em volutas de afinidades
e que juntas ou separadas
gritam mil actividades.
Com punhos fechados, em força,
ou num gesto em que se torça,
desatam-me os nós com perícia
ou inventam-se uma carícia.

Canto o desembaraço
do tronco...
que a todos estrutura e une.
Por tractos ocultos reúne
alimento, asseio, respiração,
o estralar de um coração.
É ele que me curva e levanta,
que me define a postura,
soltando expressões na garganta
de vento vibrado em clausura.

Canto o desencadear
da mente…
que me extravasa a cabeça
atenta à multidão de sentidos.
Recolhe-os no mundo e alicerça
outros novos ou reconstruídos.
Muitas vezes não se cala
e mói-me o juízo, a despique.
Rodopia, a minha psique,
e é preciso acalmá-la.

Canto o desencosto
dos dias…
que quebraram o feitiço,
de uma dor firme, em tortura,
traçando pelo corpo o esquiço
das sendas para a sua cura.
Porque hoje há, em cada hora,
um riso que volta e comemora
a acção presente, incontida,
da energia pura, desen... vol... Vida.


08.2015

30 de julho de 2015

Trovões de areia


O cliché das pegadas na areia rastreava um caminho displicente de fim de tarde, até à enchente sonora. Parou.
(...)
Se fechasse os olhos, ali, no meio da baía despovoada, ouvia as ondas na areia como trovões, a ecoar por todo o céu na terra. Uma trovoada sem relâmpagos que, no entanto, era possível imaginar e ver, raiados a branco com muitos braços, no escuro das pálpebras cerradas através das retinas queimadas do sol. Um trovão com início e um longo durante... de luzes a estremecer áreas distintas do nebuloso negrume, cujo fim se perdia por entre o troar de novos começos. Um céu inflamado e brusco, completamente ausente mas descido à terra pelas curvas ressoantes.
De olhos abertos podia conhecer-se o engano e perceber de onde eclodira a imaginação. O combate entre o sólido dunar e o líquido aquoso. De olhos abertos impunha-se a colisão de matérias que não eram apenas ar mas através do qual a mansa batalha se alargava a rugir, espraiada pelo longo comprimento da praia. Um som nascido de cada fragmento de onda perpétuo e cadenciado em ecos no anfiteatro terreno. A luz do sol espumada a branco nas orlas do azul e a transparência de orifícios sugando a água por entre os grãos de areia creme.

Naquela praia ampla, o som embateu na mulher despojada projectando interiores e exteriores diversos, plenos da paz e do tumulto nativos que ela própria continha. O pensamento e os sentidos cruzaram-se na contemplação natural, conectando o corpo e a mente, gratos por serem humanos e poderem ser tão felizes com a realidade como com a ficção.

Alvor, Junho ou Julho de 2015

9 de novembro de 2014

Marés de escrita

Dissipo as dúvidas,
voltam-me as dúvidas,
dissipo as dúvidas,
voltam-me as dúvidas,
dissipo as dúvidas,
voltam-me as dúvidas.

Escorro-me do presente entre ondas e areias
mas só ao mar é permitido ir e vir perpetuamente.
Só a fonte da vida não tem de se explicar e
eu queria ser, mas não possuo, um mar.
Mesmo assim não posso evitá-lo...

Dissipo as dúvidas,
voltam-me as dúvidas,
dissipo as dúvidas,
voltam-me as dúvidas,
dissipo as dúvidas,
voltam-me as dúvidas.

Estou prenhe da consistência das marés.


09.11.2014 Coimbra

4 de maio de 2012

Lusiadas contemporâneos


Concordo completamente com a ideia de uma nova Epopeia necessária, não só ao povo Luso mas a muitos outros do Ocidente e da Europa em particular. No entanto é desta língua, deste país rectângular e destes problemas concretos que estou mais próxima. Por isso, hoje depois de ter recebido este texto via Facebook, escrito pelo muito ilustre autor Luis Vaz sem Tostões, sito algures nas margens do Coura, quebro o hábito de só aqui colocar textos da minha brida e convido quem aqui venha a gozar os sorrisos e as raivas dos novos Lusiadas... possam as palavras inspirar os actos e transbordar das letras para a construção de novas Epopeias práticas :)

I

As sarnas de barões todos inchados
Eleitos pela plebe lusitana
Que agora se encontram instalados
Fazendo o que lhes dá na real gana
Nos seus poleiros bem engalanados,
Mais do que permite a decência humana,
Olvidam-se do quanto proclamaram
Em campanhas com que nos enganaram!

II

E também as jogadas habilidosas
Daqueles tais que foram dilatando
Contas bancárias ignominiosas,
Do Minho ao Algarve tudo devastando,
Guardam para si as coisas valiosas
Desprezam quem de fome vai chorando!
Gritando levarei, se tiver arte,
Esta falta de vergonha a toda a parte!

III

Falem da crise grega todo o ano!
E das aflições que à Europa deram;
Calem-se aqueles que por engano
Votaram no refugo que elegeram!
Que a mim mete-me nojo o peito ufano
De crápulas que só enriqueceram
Com a prática de trafulhice tanta
Que andarem à solta só me espanta.

 
IV

E vós, ninfas do Coura onde eu nado
Por quem sempre senti carinho ardente
Não me deixeis agora abandonado
E concedei engenho à minha mente,
De modo a que possa, convosco ao lado,
Desmascarar de forma eloquente
Aqueles que já têm no seu gene
A besta horrível do poder perene!

Luiz Vaz Sem Tostões





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