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29 de dezembro de 2024

O que é que achas?

O que é que achas? 

O que queres que te responda? 

Qual é a tua opinião? 

Acho que raras vezes alguém quer opiniões
de facto. E se me sairem ideias
diferentes, quando o que
tu queres mesmo é uma
concordância disfarçada
 de opinião?

Oh, lá estás tu! 

Para poder dar-te a "corcordação"
tens de me dizer a resposta.
 

Esquece, pensas sempre ao lado. 

Talvez por isso vejo
que raramente alguém 
quer opiniões, mas às vezes 
consigo deixar-te 
feliz. Qual é 
a "concordação" que queres,
para eu ver se há?

28 de outubro de 2024

Nevão

Neva na Serra e
ninguém disso duvida
mas daqui do sopé
já ninguém a vê
e daqui do sopé 
já ninguém 
lá vai.

Sumiu uma Serra 
na magia branca 
apagou-se translúcida 
entre os lábios dos céus
e só a fé afirma
que regressará.

A Serra escondeu-se 
mas o Serrano sabe
que assim deve deixá-la.
O amor das alturas a devolverá 
mantilhada a cristais
e penugens de anjo
o saldo natural do celeste beijo
e virá prenhe de frio 
e de regozijo.

Beija-nos a Serra 
um tremor nublado.
Ninguém disso duvida
mas já ninguém a vê 
nem alguém a subirá 
porque a brancura é pura

mas o nevão é privado.

28 de setembro de 2024

O bule

O bule de loiça 
não cheira mas
tem uma flor à superfície 
e duas faixas azuis.
Ficou lá na casa dele
num armário atrás do vidro
vazio à espera
sem se incomodar
com a ausência de chá 
e biscoitos
ou leite a ferver.
Eu não sou 
um bule e
cheira-me a outono na rua.

9 de setembro de 2024

Ardor de verão

A pele macia e dourada 
do sol de verão 
rasgou-se nos joelhos
e nas palmas das mãos 
de encontro às pedras 
e ao pó do chão.

É habito que esta estação 
nos deixe a arder à superfície
mas este ano tem sido exceção.

Sinto o ardor e então 
sorrio grata 
ajoelhada na cova furtiva
ali desejo que esta metáfora 
finde a anual tradição.
Já foi cumprida.

17 de agosto de 2024

Bella vulgaria

A vespa gigante infiltrou a casa
saída da noite a escutar a luz
elétrica atacou as paredes
brancas 
a batuques nos estuques
de esbaforir quaisquer gentes
Apaga a luz, abaixa-te aí!
Acende a da rua, a ver se ela sai!
Bréu sonoro por segundos

mas zumbe um bizarro banzé 
O que é isto? 
O que é que é?
Com as asas embaraçadas
a vespa espetou-se na teia do beirado 
e agora esperneia
aterrorizada depois de aterrar
Para ela acorre uma aranha
a seda soou ao jantar e
os oito olhos luzem de sanha 
ao vir com zelo reforçar a cadeia
por onde a vespa rabeia
não se vai deixar roubar
Quem achas que vai ganhar?
A aranha fia 
para ver se a enleia
e se com as queliceras a estonteia
mas a vespa inteira retorce e guerreia
e de ferrão erguido torneia e golpeia
Vê a vida por um fio 
e teme a ironia desse epitáfio.
Coitada da vespa! Já foi!
A aranha insiste 
tenta picar e fia mas
a vespa estrebucha com resiliência 
e tanta força faz 
que a aranha se afasta
libertando o fôlego da contorcionista
para romper a cadeia
e reaver a esperança
levando consigo as presas da teia 
A vespa escapou!  Protejam-se! 
Parece furiosa 
mas estampa a beleza
cruel e ardilosa 
da natureza




9 de agosto de 2024

Insónia

A hora certa de dormir
passou sem que a agarrasse 
e a mente deixou-me à espera 

do regaço da inconsciência
a ir 
e vir 
de cansaço
de corpo alerta 
e sem paciência.
Está calor frio entre os lençóis 
adesivos 
aos tempos contados
e enrodilhados nos dedos  
dos pensamentos suados
e dos gestos atrapalhados.
Levanto, como, deito
conto carneiros e canto
Contorço, deito 
levanto
livro fechado, 
livro aberto,
água fria e depois
chá quente
quase 

Que nervos, de novo desperto! 
Tudo geme nesta teimosia
da vigília a bruxulear
força ausente e em demasia
que não se deixa aquietar.

Foi tolice 
deixar fugir a hora
e dormente fico a pensar
que a IA, sendo um prodígio
libertador do esforço humano,
bem podia inventar um relógio
para agarrar as horas do dia
e sempre que a certa passasse
a apanhasse e reservasse
para quando 
me conviesse.
 
Amanhã 
quando 
acordar 
vou
...

27 de julho de 2024

Exprimir o inexprimível

Um obscuro inexprimível
interpela-me 
Estico-me e torço-me
ele assoma e retrai-se 
abandono-o 
e ele
espelha
além a imensidão
Volto a fuçar, a esbracejar,
as unhas agudas esgravatam o algo
mas a língua enrola e a mente cola
quando ele corresponde a si
intocável 
Deixa-me só intuir 
que talvez seja múltiplo
como a funda vertigem
da luz estrelada à noite na Serra
Aceito em silêncio 

15.07.24 

13 de julho de 2024

Queixinhas em palavrões

€@#&£!
Estou cansada
da matéria a transmutar
sempre e sempre e sempre 
"Nada se perde..." e tal...
"Tudo..." e tal... sempre a mudar
Mas é sobretudo um fastio
se a matéria não transmuta 
e não cria metamorfoses
ao sabor dos meus palpites
(atacam-me palpitações)

Enfim, 
talvez seja só fadiga
e este texto um pretexto
de fazer queixas à Vida
para ver se a endireito
Quem sabe ela ouça melhor
se usar destes palavrões 
em vez de "puta de merda,
cona e caralho, cabrões"
(que são uns que tenho usado
embora sem resultado)

Diz lá Vida, como é que entendes?
É de usar um dicionário?

7 de julho de 2024

O Puzzle


Tenho aqui dois mil pedaços 
de uma Cidade
na mão  

Tenho em mim a ousadia
de tornar o caos razão 
de dar lógica à abstração 
e organizar a entropia 
de uma caixa de cartão 
uns minutinhos ao dia  

Tenho o tempo e a alegria
Mas saiu-me a mão aziaga
e escolhi a peça isolada
guardada na caixa errada 

Gastei um tempão 

numa Cidade à espera 

em vão 

22 de junho de 2024

Matutinar

O anseio da vida agora
escorrega do além
repentino como um berbequim
a dissipar a névoa do sossego.
Não achas cedo? 
- Negoceio -
Que tal novo abraço do nada?
Dobras fofas e imateriais?
Pedaços de possíveis? 
Só estar?
Não não, estalam as ferramentas
Há um corpo para emoldurar
Há roupa para o estendal
Há ideias a preencher
Há sol na rua a chamar
Há pessoas e horas certas
é imenso o potencial
de tudo o que podes fazer.

Caramba, são 6 da manhã!

Pois, devia ser proibido começar as
obras interiores antes das 10,
mas ninguém regulamentou isso.


11 de junho de 2024

Escolha





Encontrar-te.
Abraçar-te e dedicar-me.
A ti, de entre todas as possibilidades.
Como se escolhe um pensamento
de entre tantos que se abeiram?

3 de junho de 2024

Corrida

Passo, calçada, 
passo, calçada,
respiração aberta, passo, calçada,
o corpo em dianteira passa, a calçada,
passo, calçada, 
a cabeça agitada,
passo, calçada, passo na estrada,
passo, estrada, a passadeira passa,
passou pensamento, passo, calçada,
passo, calçada, 
passo, calçada, 
na marginal ao mar, passo, calçada,
o pulmão inebria, passo a calçada,
passo, calçada,
passo, passo, passo, passo,
passo, calçada, 
passo, calada,
que a corrida esvazia, 
seja abençoada
passo, passo, passo, passo.
até à paz desejada.

1 de junho de 2024

Programas

Comece a escrever
diz-me o programa de notas no telemóvel
obedeço e copio-o
abaixo do Título
colo.
Em que estás a pensar?
pergunta o Facebook
É mais difícil 
Não pensava em nada
mas a estratégia de adesão 
destes programas
interpela-me.

Ah perdão,
O Facebook está fora de moda
e Programas já não há
só Aprendizagens Essenciais
e PASEO em sigla
Quase penso
Passei?
Sim, é de perfil de alunos que se fala
e de perfil é mais fácil
basta encolher
a barriga
nas grades das grelhas e aplicar
as instruções das apps.

Habituamo-nos cedo
a cumprir.


12 de fevereiro de 2024

Feriado

O tempo livre da manhã cedo
ping
a
do beirado alaranjado 
de telhas de meia cana
ping

porque molha tolos
por entre o café quente
do feriado enrolado
à janela fria que
pin
ga 
quieto a ver a luz nos prismas
das pin
gas
que agarram a paz do dia intacto 
São pin
gas de inverno
que então me acordam
porque decidem
pingar
potenciais e ideias 

Resisto já sem café 
mas os cenários do dia
pingam pingam
mais pesados
descaem-se do céu nervosos
pinga pinga pinga
O que vais fazer?
Como vais aproveitar 
antes que acabe?
pinga pinga pinga pinga
Isto mais isto ou aquilo
pinga pinga pinga pinga
aqueloutro e mais três 
pinga pinga pinga pinga
O dia é livre tudo é possível 
pinga pinga pinga pinga
Que ampulheta é esta
que me chove cá dentro?
É tortura chinesa
Já não se pode estar só
sossegado?

Pinga pinga pinga pinga 
Pinga pinga pinga pinga

Pronto, está bem, já fui.


7 de janeiro de 2024

Cisterna

Tudo o que não
fiz
acelera
somado a tudo o que fiz
mal feito
e atravessa-se à minha frente
e atropela-me certeiro
o peito
Nem o banco de jardim
me salvou do camião -
- cisterna
 

mergulho
na sua profundidade

escura

07.01.24 

27 de dezembro de 2023

Sacode

O medo traz muitos olhos
a espreitar dos cantos
a insegurança e os perigos
Mas quando se fixa
como ângulo de visão 
torna-se os olhos de ler a vida
e deturpa a luz 
como mágoa 
gelatinoso, azedo, arrastado,
ou exuberante aos gritos
Deturpa até as sombras
povoadas de "ses"
e relê toda a estória 
O medo filtra as papoilas
o ritmo das borboletas
e escoa a dor
para a chávena de beber certezas
cheias de razões 
deitando as borras no lixo
Quando o medo se fixa
e o medo são olhos vesgos
e o medo entupiu os filtros
é inútil 
estragou-se
está na altura de o desencravar
de deslocar os ângulos
agitar tudo
e olhar por outro prisma
Sacode!

28.12.23 

9 de dezembro de 2023

Bétula Branca

Ensinaste-me na Serra a escrever 
na casca da Bétula Branca
Mais tarde ofereci essa ciência ao Amor
e com surpresa ele aprendeu
Foi por isso que recebi as Cartas das Cascas 
que guardo numa gaveta
Por causa de ti e de ti que não se amavam
Por causa de mim que amava os dois
Por causa da Bétula Branca 
e dos seus costumes na Serra

Ainda bem que não me ensinaste a fazer chá 
A Bétula Branca tinha perdido as palavras
e eu o encanto com que lhe toco

um encanto a segredar por trás das cascas

9.12.23

27 de novembro de 2023

O espelho: Artifício interligado AI

Off/ On
macaco de imitação
gerador de criação
Sem pulso/ Impulso
diferença de potencial
com potencial na diferença 
Máquina/ Humana
artifícios interligados
por universos de dados
Alexa/ Ana
Siri ou Cortana servem,
sem ser à mesa, os Senhores
Chatbots/Operadores
precisos eletrões em dança
a linguajar nos corredores
Neurais/ Neurónios
por redes fundas a disparar
sinapses com alvo ao futuro
ChatGPT/ tanto a ler
só porque uma vez explodiu
um espelho na casa de Turing
É lógico/ às vezes
e pouco depois Macarthy IA
precisar de pentear as barbas
É Reflexo/ Real
da libertinagem de zeros e uns
na tela plana, espectro de luz
Algoritmos/ Alimentos
Digeres assim, DABUS?
Veremos
e entretanto a bolsa engorda
da cotação de empresas de
AI!
espelhos sem patente!
Ups/ hide down.

11.2023

23 de outubro de 2023

Nos trilhos da Estrela

Serra da Estrela vista do sopé

Ao chegar
vejo-te ao longe
ensimesmada gigante,
Estrela minha, ascendente,
e a cada sazonal regresso
tu quieta
do teu regaço
ofertas-me os vales e montes
de quem anseio um abraço
dispões lagoas e fontes
para desaguar do cansaço
e vestes 
a mais viva cor
rubra em matizes, no ocaso.

Cerzida de urze
e giesta
por entre granitos rolados
embalas os filhos nos galhos
que resistem à razia
de incêndios
acumulados
de solos abandonados
e dos invernos de idades
a carpir-te de saudades.
Serra que gera e que morre
solidez que gela
mas chove,
ciclo natural de esperanças.

Subo na tua mão
veredas,
mourejo o coruto de Alfátima
pelos figos que a lenda urde.
Lá em cima, escuto o rumor
das faldas 
do Castro Verde
e dos prantos que a penha verte.
Depois, vigio a cabeça
sem corpo, do velho, que falta,
deve andar no pastoreio.
E vou ao
Vale do Rossim
espalhar-me pela água a meio.

Por estradas
esburacadas
chego às Penhas Douradas.
No maior Tor fico miúda
e chamo, cheia de coragem:
- Oh cântaroos!
Os, os, os...
Sussurra do além a paisagem.
Atalho chalés e pinheiros
fixa no Fragão do Corvo
ninho de rocha a apontar
para a explosão
de relevo
do Zêzere e do seu glaciar.

Observo
o Observatório
mas digo adeus ao cenário
quero ir ao Mondeguinho
para cumprir a tradição
de o saltar
ao pé-coxinho.
Invocação de água, evocas
os fluxos da emigração
a esvaziar as barrocas
e a acelerar a erosão.
Educas
no desapego
aldeias, que perdem o jogo.
 
Vem o fusco
piam sombras
o fresco estala o calor
e surge a madrinha beirã
o teu dossel, Aldebarã, 
para aconchegar-te 
o burel.
Traz leite da via de estrelas
e grilos no breu, a rebate.
O tempo irrompe por dentro.
Serra gigante, embrulhada,
a dormir
na diagonal
das sortes de Portugal.
23.10.23




1 de outubro de 2023

Sair de Si

Nós,
redondos do ócio
de apenas estar,
inúmeros
planos
decepados.
Somente nós,
marcados dos anos
como dedos de ramos
ausentes das histórias
das árvores do teto,
que me espiam
solta na cama
a vê-los.
Nós
como olhos
maquilhados
a reverberar eras
concêntricas de esperas
de pinho ou carvalho
discretos nos móveis
atalaias de soalho
bulício de copa
cortada.
Nós
cegas feridas
de um corpo fixo
de raiz no relógio de areia
de química e micélio a conversar
sob o solo do bosque em rede.
É uma existência tão díspar
que apenas se concebe
ao sair de Si

e chegar
ao Dó

Sair é difícil
Há tantos
nós


01.10 de 2023


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Cáceres de um café

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