25 de junho de 2017

Lenga longa Summer Fest e a Balada do Fogo posto



Lenga longa Summer Fest
e a Balada do Fogo posto

˗ A vida andava parada, lá onde ninguém a quer,
Qual Judas perdi as botas e abandonou-me a mulher.
Andava bem cabisbaixo sozinho a roçar o pasto
em terras mal-amanhadas, que mais não tinha pró gasto.
Cuidar de ovelhas e cabras, ir à lenha, um trabalhão,
por acidente a queimada escapou-se-me e fez clarão.
Vieram gentes aos gritos com as mangueiras na mão
e inaugurei uma moda, um Festival de Verão!

Era uma vez um país 
com incêndios no Verão 
e estava sempre a dizer: É Verão está tudo a arder! (2x)

Chamaram os Voluntários pra vir apagar o fogo.
Os Voluntários apagam o fogo
e o fogo regressa no Verão.
E o país sempre a dizer: É Verão está tudo a arder!

Chamaram a Aviação prá ajudar os Voluntários
mas o  avião só faz combate
e as matas estão desordenadas
e os Voluntários apagam o fogo
e o fogo regressa no Verão.
E o país sempre a dizer: É Verão está tudo a arder!

Encomendaram Estudos prá ajudar à protecção
e os Estudos falam de prevenção
nos campos agora abandonados
 e o avião só faz combate
e as matas estão desordenadas
e os Voluntários apagam o fogo
e o fogo regressa no Verão.
E o país sempre a dizer: É Verão está tudo a arder! (2x)

˗ Vem comigo Aurora Ruiva ao Festival do Verão
que eu quero ver-te rosada no decorrer da estação.
Eu agarro no isqueiro e vou vingar-me afinal.
Vêm sirenes e bombeiros numa orquestra teatral.
Enchemos matos desertos com coros de aflitos
ouvimos estalar a terra por entre chamas e gritos.
Ai gosto tanto de vê-los com a mangueira na mão!
Vem comigo Aurora Ruiva ao Festival do Verão.

Era uma vez um país 
com incêndios no Verão
e estava sempre a dizer: É Verão está tudo a arder!(2x)

Chamaram homens de lei para aplicar os Estudos 
e os homens criam várias Leis
mas as Leis não saem do papel
e os Estudos falam da prevenção
e os campos estão abandonados
 e o avião só faz combate
e as matas estão desordenadas
e os Voluntários apagam o fogo
e o fogo regressa no Verão.
E o país sempre a dizer: É Verão está tudo a arder! 

Chamaram poderes locais prá aplicar a nova Lei
mas muita floresta é privada
e não há um cadastro nacional
e as Leis não saem do papel
e os Estudos falam da prevenção
e os campos estão abandonados
 e o avião só faz combate
e as matas estão desordenadas
e os Voluntários apagam o fogo
e o fogo regressa no Verão.
E o país sempre a dizer: É Verão está tudo a arder! 

Chamaram Quadros de Apoio para a rearborização
 e os Apoios vieram da Europa
e não foram bem fiscalizados
e falta um cadastro nacional
e as Leis não saem do papel
e os Estudos falam da prevenção
e os campos estão abandonados
 e o avião só faz combate
e as matas estão desordenadas
e os Voluntários apagam o fogo
e o fogo regressa no Verão.
E o país sempre a dizer: É Verão está tudo a arder! (2x)

- O cartaz já está fechado para o novo Summer Fest
vira o disco e toca o mesmo, que todo o tema é silvestre.
Há giestais renovados e o vento quente assobia,
helicópteros e aviões dão mais ritmo à cantoria.
E a cada ano que passa vivo mais a adrenalina
pois se antes eu quis vingança agora acho que é sina.
Vem comigo Lua Nova ao Festival do meu Verão.
Ai gosto tanto de ver-te com a mangueira na mão!

Era uma vez um país
com incêndios no Verão
e estava sempre a dizer: É Verão está tudo a arder! (2x)

Chamaram os Sapadores com ajuda dos Apoios
e os Sapadores fazem prevenção
mas o financiamento é limitado
e os Apoios não são fiscalizados
e falta um cadastro nacional
e as Leis não saem do papel
e os Estudos falam da prevenção
e os campos estão abandonados
 e o avião só faz combate
e as matas estão desordenadas
e os Voluntários apagam o fogo
e o fogo regressa no Verão.
E o país sempre a dizer: É Verão está tudo a arder! 

Chamaram os Penalistas pra punir incendiários
e o fogo pode levar à prisão
mas ainda é um bom negócio
e os Sapadores foram limitados
e os Apoios não são fiscalizados
e falta um cadastro nacional
e as Leis não saem do papel
e os Estudos falam da prevenção
e os campos estão abandonados
 e o avião só faz combate
e as matas estão desordenadas
e os Voluntários apagam o fogo
e o fogo regressa no Verão.
E o país sempre a dizer: É Verão está tudo a arder! (2x)

˗ Fui preso, saí a tempo e retornei ao trabalho,
angariei mais clientes, bulo por gosto e não falho.
E podem tentar parar-me, que pouco vai resultar,
se não for eu vai ser outro, é o dinheiro a mandar.
Mas vem comigo, amor novo, para mais um festival
De olhos raiados de lume atiças-me ao matagal.
Tu agarras-te à mangueira e eu acendo o clarão.
Vem comigo Íris Chama ao Festival do meu Verão.

Era uma vez um país
com incêndios no Verão
e estava sempre a dizer: É Verão está tudo a arder! (2x)

Chamaram a Administração prá articular Institutos
e o ICNF faz campanhas
mas a execução é criticada
e o fogo não é mau negócio
e os Sapadores foram limitados
e os Apoios não são fiscalizados
e falta um cadastro nacional
e as Leis não saem do papel
e os Estudos falam da prevenção
e os campos estão abandonados
 e  o avião só faz combate
e as matas estão desordenadas
e os Voluntários apagam o fogo
e o fogo regressa no Verão.
E o país sempre a dizer: É Verão está tudo a arder!
E depois pôs-se a gritarQuando é que isto vai mudar?

Levantou-se o Parlamento prá acudir à voz do povo
e o Parlamento ditou sugestões
diretamente para uma gaveta
e o ICNF é criticado
e o fogo não é mau negócio
e os Sapadores foram limitados
e os Apoios não são fiscalizados
e falta um cadastro nacional
e as Leis não saem do papel
e os Estudos falam da prevenção
e os campos estão abandonados
 e o avião só faz combate
e as matas estão desordenadas
e os Voluntários apagam o fogo
e o fogo regressa no Verão.
E o país sempre a dizer: É Verão está tudo a arder! (2x)

- Voltámos ao mês de agosto, regressou a lenga-lenga,
O cuco não queria couves numa tarde solarenga,
E este país grita: Pára! Mas padece de molenga.
Vão bradar por comissões para repensar soluções
e esquecer-se de ir a campo executar convicções
pois em meados do ciclo volta-se atrás em desnorte
que a lenga-lenga do cuco só terminou com a morte.
Vem comigo Morte amiga às plantações do carvão
São a tradição mais longa dos Festivais de Verão!

Agosto de 2016

Esta junção de textos foi escrita no final de agosto do ano passado, quando mais uma vez a minha Trêmoa esteve em perigo de arder e se safou por um triz... não a publiquei aqui nessa altura na esperança, sempre renovada, de que já não fosse necessário e de que este inverno fosse diferente, com modificações e políticas mais interventivas no terreno. 
Mas todos os anos a lenga-lenga de verão se repete... infelizmente este ano começou em Junho e foi mais trágica em mortes do que costuma ser. Infelizmente o tema dos incêndios e da falta de planeamento e ordenamento florestal continua a amedrontar-me. Infelizmente continuo a sentir-me revoltada com tanta inércia e dificuldade em implementar mudanças. 
Desta vez, pelo menos aparentemente, o acontecimento que despoletou a tragédia em Pedrógão Grande e depois em Góis foi natural... mas há outras causas. São conjunturais e estruturais e estão mais que identificadas sem que se consiga modificá-las há anos. Para quando dar a devida atenção, necessária me prática, ao reordenamento territorial e florestal? Para quando dar a devida atenção, necessariamente de proximidade e de terreno, à prevenção de incêndios? As modificações climáticas não desaparecem quando chega o outono. A desertificação do interior e as mudanças nas atividades primárias não vão parar se fecharmos os olhos e assobiarmos para o lado. 
Este inverno foi particularmente seco, ainda estamos em Junho e o verão anuncia-se muito quente... é pois com o espírito alerta que endureço o coração, apreensivo, e me tento preparar mentalmente para os próximos meses...

8 de julho de 2016

Arqueóloga ou esteticista (Fragmentos da Feminil...Idade XIII)

 

Arqueóloga ou Esteticista

 

No pino do sol a luz deflecte no calcário.

O calor sobe em sombra azul na parede

e envolve os destroços acima da cota

de dois andares esventrados de piso.

Restos de tijolo burro cruzado,

pedras brancas,

Paredes no chão, canos e pregos.

 

Argamassas e destroços da

desconjuntura do belo,

que um dia foi.

Do razoável,

que se foi.

Do obsoleto,

que era.

Da ruína

que é.

 

       Ar denso e branco do pó da cal com areia,

         dos ligantes de terra, amarela e vermelha.

                Muco e sangue patrimoniais na maca,

                na cirurgia brusca da retroescavadora,

                do músculo pneumático e da marreta.

                                  A arqueóloga colige dados

                                           não resgata a estética.

17 de agosto de 2015

Desen...Canto


Canto o desencontro...
dos pés...
sustendo as pernas a passo,
tacteando as nervuras do chão,
e que alongados no espaço
me riscam a direcção.
E se de algum eu me esqueço,
para evitar um tropeço
contorcem-se sobre a calçada,
mantendo-me equilibrada.

Canto o desenlace
das mãos…
pelos braços articuladas
em volutas de afinidades
e que juntas ou separadas
gritam mil actividades.
Com punhos fechados, em força,
ou num gesto em que se torça,
desatam-me os nós com perícia
ou inventam-se uma carícia.

Canto o desembaraço
do tronco...
que a todos estrutura e une.
Por tractos ocultos reúne
alimento, asseio, respiração,
o estralar de um coração.
É ele que me curva e levanta,
que me define a postura,
soltando expressões na garganta
de vento vibrado em clausura.

Canto o desencadear
da mente…
que me extravasa a cabeça
atenta à multidão de sentidos.
Recolhe-os no mundo e alicerça
outros novos ou reconstruídos.
Muitas vezes não se cala
e mói-me o juízo, a despique.
Rodopia, a minha psique,
e é preciso acalmá-la.

Canto o desencosto
dos dias…
que quebraram o feitiço,
de uma dor firme, em tortura,
traçando pelo corpo o esquiço
das sendas para a sua cura.
Porque hoje há, em cada hora,
um riso que volta e comemora
a acção presente, incontida,
da energia pura, desen... vol... Vida.


08.2015

30 de julho de 2015

Trovões de areia


O cliché das pegadas na areia rastreava um caminho displicente de fim de tarde, até à enchente sonora. Parou.
(...)
Se fechasse os olhos, ali, no meio da baía despovoada, ouvia as ondas na areia como trovões, a ecoar por todo o céu na terra. Uma trovoada sem relâmpagos que, no entanto, era possível imaginar e ver, raiados a branco com muitos braços, no escuro das pálpebras cerradas através das retinas queimadas do sol. Um trovão com início e um longo durante... de luzes a estremecer áreas distintas do nebuloso negrume, cujo fim se perdia por entre o troar de novos começos. Um céu inflamado e brusco, completamente ausente mas descido à terra pelas curvas ressoantes.
De olhos abertos podia conhecer-se o engano e perceber de onde eclodira a imaginação. O combate entre o sólido dunar e o líquido aquoso. De olhos abertos impunha-se a colisão de matérias que não eram apenas ar mas através do qual a mansa batalha se alargava a rugir, espraiada pelo longo comprimento da praia. Um som nascido de cada fragmento de onda perpétuo e cadenciado em ecos no anfiteatro terreno. A luz do sol espumada a branco nas orlas do azul e a transparência de orifícios sugando a água por entre os grãos de areia creme.

Naquela praia ampla, o som embateu na mulher despojada projectando interiores e exteriores diversos, plenos da paz e do tumulto nativos que ela própria continha. O pensamento e os sentidos cruzaram-se na contemplação natural, conectando o corpo e a mente, gratos por serem humanos e poderem ser tão felizes com a realidade como com a ficção.

Alvor, Junho ou Julho de 2015

9 de novembro de 2014

Marés de escrita

Dissipo as dúvidas,
voltam-me as dúvidas,
dissipo as dúvidas,
voltam-me as dúvidas,
dissipo as dúvidas,
voltam-me as dúvidas.

Escorro-me do presente entre ondas e areias
mas só ao mar é permitido ir e vir perpetuamente.
Só a fonte da vida não tem de se explicar e
eu queria ser, mas não possuo, um mar.
Mesmo assim não posso evitá-lo...

Dissipo as dúvidas,
voltam-me as dúvidas,
dissipo as dúvidas,
voltam-me as dúvidas,
dissipo as dúvidas,
voltam-me as dúvidas.

Estou prenhe da consistência das marés.


09.11.2014 Coimbra

4 de maio de 2012

Lusiadas contemporâneos


Concordo completamente com a ideia de uma nova Epopeia necessária, não só ao povo Luso mas a muitos outros do Ocidente e da Europa em particular. No entanto é desta língua, deste país rectângular e destes problemas concretos que estou mais próxima. Por isso, hoje depois de ter recebido este texto via Facebook, escrito pelo muito ilustre autor Luis Vaz sem Tostões, sito algures nas margens do Coura, quebro o hábito de só aqui colocar textos da minha brida e convido quem aqui venha a gozar os sorrisos e as raivas dos novos Lusiadas... possam as palavras inspirar os actos e transbordar das letras para a construção de novas Epopeias práticas :)

I

As sarnas de barões todos inchados
Eleitos pela plebe lusitana
Que agora se encontram instalados
Fazendo o que lhes dá na real gana
Nos seus poleiros bem engalanados,
Mais do que permite a decência humana,
Olvidam-se do quanto proclamaram
Em campanhas com que nos enganaram!

II

E também as jogadas habilidosas
Daqueles tais que foram dilatando
Contas bancárias ignominiosas,
Do Minho ao Algarve tudo devastando,
Guardam para si as coisas valiosas
Desprezam quem de fome vai chorando!
Gritando levarei, se tiver arte,
Esta falta de vergonha a toda a parte!

III

Falem da crise grega todo o ano!
E das aflições que à Europa deram;
Calem-se aqueles que por engano
Votaram no refugo que elegeram!
Que a mim mete-me nojo o peito ufano
De crápulas que só enriqueceram
Com a prática de trafulhice tanta
Que andarem à solta só me espanta.

 
IV

E vós, ninfas do Coura onde eu nado
Por quem sempre senti carinho ardente
Não me deixeis agora abandonado
E concedei engenho à minha mente,
De modo a que possa, convosco ao lado,
Desmascarar de forma eloquente
Aqueles que já têm no seu gene
A besta horrível do poder perene!

Luiz Vaz Sem Tostões





30 de abril de 2012

Headbanging for thy obsession (Trunks of old and dark spirits II)

Headbanging for thy obsession

The siren whispers…
and I don’t know why
does that song find warmth
into my mind.
It says that if I listen
and then I don’t forget
there’s quietness and bliss
that will surely set.
I feel that it is wrong but…
what should I do?
The lyrics and the promise
sound as if true.
So I care no more
for whom does it serve,
‘cause it fills the void
and it calms my nerves.

Oh song of faith, oh sing to me...
the utopia of the lands that I will see!
Where the wrongs were put right,
Where this Man won his fight,
raising back from the ruins of time!

But… the ashes,
only ashes, grey ashes.
There’s no Man to be seen
from out here!
Only ashes that fill everything…
There is no Man to rise,
and the song is demise
set to lure the obsessions within.

Oh song of Faith, oh sing no more!
Let me silent and quietly find shore…
'cause the wrongs creep back in
carving signs in my skin,
maps of old, where nothing can begin!

Checking sea, checking land!
- Laughs the siren!
She commands me to sing,
then I am She,
struggling with the obsessions
gone free!
And as soon as you do,
begin to sing her back,
the song works
and your mind starts to crack.
Piercing voice and aloud,
just by giggling in sway,
twisting off all your memories
on play and replay!

Oh Saint Obsession, 
then by banging my head,
I‘ll spill it out of music 
and finish it dead!

Coimbra, Jan/Abr 2012




24 de junho de 2011

Rimas da Amora Simples

Se a memória 
da amora, 
não compensar a do espinho, 
Só a fome 
atreve a mão 
a fazer-se-lhe ao caminho. 
Na abundância 
da estufa 
impera o morango a pacote. 
Não há razões 
de ir à silva 
e arriscar-se num corte. 
Dali se alimentam pássaros; 
umas cansam-se no chão. 
Há uns radicais 
que as comem, 
em desportos de verão. 
As outras minguam 
sementes, 
esquecidas já do sabor, 
sem vantagens de mercado, 
que é quem 
Nos Define o Valor.

Mas há quem guarde gatilhos, 
antigos, 
sem medo aos espinhos, 
e salive 
por amoras silvestres, 
mesmo que tenha... 
mirtílos.

 :) 

 Escrito hoje, mais um dia em que não comi amoras silvestres :)

11 de junho de 2011

Lanternas

Não quero que desçam lanternas dos céus esta noite, aqui só!

Porque as lanternas garridas irrompem nos olhos adentro, e por rasgadas pupilas, cortinas abertas, desenham-me um nó.(Sob a luz, por sistema, sobressaem sintomas, maclados em cor).

Por isso, impeçam que desçam lanternas dos céus a alumiar, esta noite! Que o ventre quer ventre, voltar-se à escuridão, ser perene e gerar. De ausência de fora aconchega-se a funda imersão, em abraço. Um nicho aninhado de bicho, acossado e a catar-se o cansaço.

Não deixem que baixem lanternas dos céus, as estrelas, ou lua; que em mim dançaram demónios e agora, acalmados, ergo-me do chão. Vou ao escuro do ventre da terra, à mão do principio, banhar-me no nada. Que o nada estica-me o corpo nas cordas do ímpeto da transformação.

18.05.2011

18 de maio de 2011

Colo


Perdi o meu colo... um dia partiu.

Mas todos disseram que era triste chorar.
Que era feio e rude mostrar a tristeza,
que assumir a fraqueza era de envergonhar.
Assim, cerrei os dentes e cravei-os nos lábios.
Aderi à turma dos senhores da certeza,
aprendida sisuda desses discursos sábios.
Se gritos me tive, não gemi de pudor;
Se o lábio sangrou, degluti, p'ra nutrição;
Se lágrimas vieram, passei-as a secador;
Se a tristeza raiou, atirei-lhe uma canção.

Mas esquecida, nos aceiros do controlo da dor,
abateu-se-me exausta a matriz do coração!
(Esquecer é um sofisma de esforçada lentidão...)
Antes lutasse em nascer, do que nesse controlar,
Porque hoje falta-me o colo
... e a ciência de sentar.


07. 2010 (Concluído em 05. 2011)

Ao Pai

21 de março de 2011

Das coisas bonitas... postais, livros, design



"Each person is a new story, a new book.
Each book is a new idea of literature, a proposal to design a new life.
One could even read life – and live books."
Joana Bértholo

Começa assim o site da Rita Marquito, com uma frase emprestada a sumariar a sua entrega aos livros e ao desenho da linguagem gráfica. Os dois em conjunto têm dado origem a imensos trabalhos de design de livros; e quando em separado têm gerado horas de leituras (que às vezes discutimos nos cafés) ou vários outros trabalhos gráficos em exposições e sinalização de espaços (que... sim, às vezes também discutimos nas mesas dos cafés, ou entre danças nos bailes e passeios ao rio e em que eu aprendo sempre mais do que aquilo que tão pouco sabia).

A literatura, o design... Desenhar uma vida nova é um desafio estupendo! Reinventar isto tudo de olhos abertos. Trazer à baila aquilo que não estava lá e enriquecer-nos de novas e reinterpretadas experiências. Não posso por isso deixar de enquadrar aqui no Dizfarsa, para quem não conhece, o link para o novo site da Rita, onde ela está a agrupar o CV e portfolio de trabalhos e ainda os dois postais que ela criou sobre esse trabalho.

http://ritamarquito-work.tumblr.com/

Visitem depressa, a Rita enquanto cá está (porque ela pensa fugir-nos de Coimbra em breve, provavelmente para Lisboa) e o site, sempre!


15 de março de 2011

Emaranhado de Primavera

Arrebatadora!

Arrebatadora e implacável nasce-me, no fim do inverno, uma ânsia de desejos que percorrem os mil braços por onde não podem escorrer. (Só tenho dois... e atados a notas de 100 euros). É uma ânsia que não se sacode e se espatifa aguda contra a barreira de um só caminho de perna e passo, contados e numerados.

Calma aí!

Dizem que não.

Indiferentes à flecha do tempo, golfadas de ideias emaranhadas não fluem em fios de sentido que se organizem. Nenhuma espera que outra tome a dianteira para a seguir, e em vez disso todas acorrem quando se lembram, aos gritos altos, dispostas a interpor-se umas às outras porque dizem que são urgentes.(O desdém da omnipotência em corpo humano). Cada vontade é urgente! Mas são demasiadas! É tudo urgente e vital na Primavera!

Rebentam-me emoções e vontades a querer despontar da humidade invernal em casca sossegada, mas a torrente paralisa de tão frenética. O excesso aniquila o prazer do novo e os rebentos prematuros são cauterizados pelo frio da alma arrefecida; pelo corpo que ainda quer hibernar mais um bocado; pela condição de quem só processa um segundo de cada vez.

Calma aí! - Disse eu! - Ainda tenho de ajeitar os ramos. Nasçam lá uma de cada vez.

18 de dezembro de 2010

A Passagem de ano é em Coimbra

Mais um ano que entra, mais uma rodada... de voltas e danças e abraços e música e amigos e saudades.

Novamente no Centro Norton de Matos em Coimbra... lá espero encontrar-vos todos.




Mais informaçõem em:

http://www.rodobalho.com

ou em

http://www.passagem-de-ano.net/

13 de dezembro de 2010

Sardenha a pé, ficou-se por Cagliari

Visita a Sardenha sem sardas e sem sardinhas. No bucho muita massa fresca com pesto. Uma Sardenha de simpáticos Sardos na sesta da tarde quando tudo fecha. Uma Sardenha visitada em 3 dias resumiu-se apenas a Cagliari, sem sol mas com muito para ver e passear.



Da viagem trago as imagens de cultura diferente, de gente com faces que bem podiam vir daqui e a descoberta de um canto polifónico de raiz pastoril, que se ritma em transe. Aqui fica um video do youtube em francês que o explica um bocadinho.



Quanto a Cagliari convenceu-se a si mesma de que a riqueza são praias. Pode ser verdade numa ilha mas é pena, porque para além delas há ali imagens e cultura específicas que podiam ser muito mais exploradas.



A cidade é um monumetal Castelo rodeado de salinas e portos de mar, com zonas mais preservadas que outras. Tem um belíssimo anfiteatro romano e vários outros vestígios, como a necrópole de Tuvixeddu. Lembro ainda uma igreja que suscitou a nossa curiosidade por ser dedicada a São Lucifero... mas não, não evoca o demónio e sim um antigo bispo de Cagliari que foi excomungado por ser contrário à heresia Ariana (de Ariés) do séc. IV.

Por falta de um cartão de plástico, fiquei sem visita aos famosos Nuraghi proto-históricos, que tanto queria ver. Tive de contentar-me com imagens de museus e com as fotografias ao espólio tiradas pelo companheiro de viagem. Do chato o menos, porque há lindíssimas formas cerâmicas e belíssimos ex-votos de bronze.









Em suma, Cagliari, sim, vale a pena visitar, mas levem os cartões de plástico todos que tiverem, sobretudo aqueles que certificam que os bancos vos emprestam dinheiro :P Pelo que vimos, de certeza que valia a pena alugar um carro e explorar a ilha mais para dentro... Lá terá de ficar para a próxima.

1 de setembro de 2010

Ana Jones no Outeiro do Circo



Outeiro do Circo aparece no jornal O Público

Regresso... dos pés na areia e pés no mato, pés no mar e pés na estrada, regresso com os pés descansados da caminhada!

Pois, de volta a Coimbra partilho com vocês o que saiu no Público sobre a escavação no Outeiro do Circo. Este ano foi uma escavação toda mediática. Na foto estou eu e o Woody a marcar a sondagem nova! Este ano finalmente os meus ornatos brunidos prometidos apareceram, Yupiiii! Ainda são só 3 mas é melhor do que nada!

Ora diz o público (http://publico.pt/Cultura/beja-descoberto-um-dos-maiores-povoados-fortificados-da-idade-do-bronze_1453085") que:


Descoberto próximo de Beja um dos maiores povoados fortificados da Idade do Bronze

A terceira campanha de escavações arqueológicas no Outeiro do Circo (Mombeja/Beringel) termina hoje e já é possível concluir que se está perante um dos maiores povoados fortificados da Idade do Bronze Final (1200-800 a.C.) do Sul da Península Ibérica.




"Durante as escavações realizadas nesta última campanha, que arrancou no início de Agosto, foi possível compreender como se estruturava a complexa muralha, que tem uma dimensão muito superior à inicialmente esperada pelos investigadores. É composta por um muro periférico de contenção a uma rampa de barro que consolidava a base de uma muralha na zona mais elevada. A conclusão dos arqueólogos é que toda a estrutura "servia como arma intimidatória mesmo a grandes distâncias".

O povoado, com cerca de 17 hectares, figura entre os maiores conhecidos desta época e que normalmente não ultrapassam os 5 a 6 hectares, "o que lhe permite atribuir um papel capital no controlo de um vasto e rico território no centro dos férteis "barros negros" de Beja.

Sabe-se também que o Outeiro do Circo não se encontrava isolado, mas dominaria uma vasta rede de pequenos sítios de planície que fariam a exploração deste território. É o caso de Arroteia 6, um pequeno povoado aberto, localizado a menos de um quilómetro do Outeiro do Circo. Este sistema defensivo apresenta-se muito complexo e "com raros paralelos no território nacional", acentuam os arqueólogos. Os trabalhos de pesquisa dirigidos pelos arqueólogos Miguel Serra e Eduardo Porfírio, membros do Centro de Estudos Arqueológicos das Universidades de Coimbra e Porto e da empresa de arqueologia Palimpsesto, dão continuidade aos realizados em 2008 e 2009.

Em anteriores escavações foi registada a presença de vários derrubes que fariam parte da muralha, juntamente com muitos fragmentos de cerâmica enquadráveis na Idade do Bronze, bem como vestígios de épocas mais recentes e outros de períodos mais recuados, comprovado na descoberta de um braçal de arqueiro.

Novas colaborações

Outra presença constante são os numerosos fragmentos de barro cozido, que poderão ter feito parte da estrutura da muralha, sugerindo-se a sua utilização como ligante para preenchimento de lacunas na construção, à semelhança do que se propôs para outros povoados muralhados da mesma época

As escavações integram-se no projecto de investigação A transição Bronze Final/1.ª Idade do Ferro no Sul de Portugal. O caso do Outeiro do Circo e são apoiadas pela Câmara de Beja, Junta de Freguesia de Mombeja e a empresa de arqueologia Palimpsesto.

Através da formalização de novas candidaturas, os responsáveis do projecto contam, no futuro, envolver outras instituições para prosseguir as investigações na estação arqueológica, que já em 1989 mereceu uma primeira apreciação num projecto elaborado pelos arqueólogos Rui Parreira e Teresa Matos Fernandes, sobre O Bronze do Sudoeste na Região de Beja, no então Instituto Português do Património Cultural."

Além desta notícia do Público o Outeiro do Circo apareceu este agosto também no Portugal em Directo. Vejam em:

http://tv2.rtp.pt/programas-rtp/index.php?p_id=19455&c_id=1&dif=tv&idpod=43099"

- a partir do minuto 15.30 da 1a parte - entrevista aos arqueólogos (podem ver o Migas, a Sofia e o Woody que alguns de vocês conhecem eheheh, tão lindos na t-shirt da Palimpsesto LOL)
- a partir do minuto 16 da 2a parte - entrevista à população de Mombeja! Um pormenor giro é que depois desta notícia por causa da Arqueologia de Mombeja, a população teve direito a uma outra notícia por causa da falta de rede telefónica que ali é uma desgraça (para telefonar temos de ir para o meio da estrada, literalmente para o meio da estrada, na linha branca eheheh)... Se eu fosse o Peça diria "E esta hein?"

Além disto, vejam mais informações no Diário da Campanha no blogue do Outeiro do Circo

http://outeirodocirco.blogspot.com"

27 de julho de 2010

Um dia...

Um dia rompi e fugi das barreiras 
(queria eu pensar) 
Um dia senti o que é certo e errado 
(queria eu escrever) 

Um dia senti-me 
e sentei-me por inteiro, 
no topo da vida. 
E olhei-a por dentro, 
e virei-a de fora, 
revolvi intestinos, 
dei largas à memória 
e assim encontrei… 
uma linha de fundo. 
A que nos passa ao lado 
E só é vista p’lo mundo! 

Um dia descosi todos os pontos 
(que dera apenas por dar) 
Um dia alimentei as fraquezas em forças 
(sem desesperar) 
Um dia enchi-me 
esvaziando os “agoras”! 
Um dia declarei-me 
e pintei-me de cores! 
Um dia, sim, não dormi 
após a descoberta 
e soube a hora certa, 
o momento de agir! 
E de forças ao vento 
Sem venda ou remendo 
decidi-me a ir! 

Queria eu pensar… 
Queria eu escrever… 
Passos dados por querer… 
Sem desesperar… 

 03.04.2001

22 de julho de 2010

Afogamento

Afogo-me.. 
Pelo medo do claustro, 
afogo-me! 
Aberto o espaço, 
Fechado de gente. 
Afogo-me! 
metida na corrente, 
abafa-me o encontrão, 
e afogo-me! 
Reagir ao turbilhão. 
De todos os lados as vagas 
afogam-me! 
A massa que move 
o volume que massa 
afoga-me! 
O ar que não passa, calor de respiração 
afogo-me! 
Pelo medo do claustro em meio à multidão! 

 08.03.09

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