24 de outubro de 2022

Naturalmente incorreto


Escrevi um texto
escrevi um texto há bocado
com toda a indignação das emoções primárias
bebidas em segunda mão no noticiário.
Nasceu-me um texto zangado
porque é em lutas que soluçamos os dias
com lentes parciais
saberes desconexos 
mal articulados.
Não lhes estou imunizada,
às emoções do umbigo,
às armadilhas de ser o ponto um
onde inicio os pensamentos que emano
ao emprenhar de ouvido 
(por muito que tente limpá
-lo).
Sim... É verdade
chegou-me a autocrítica de lixívia e pano
que eu
escrevi um texto zangado
e agora podia apagá-lo.
Nem meia hora volvida e sei que ele não é total
que me emocionei demasiado 
e que
juntei três de ontem com um de hoje
que há egoísmos no seu resultado.
Envolvi-me demais e não vi as vistas largas
todos os pontos de todos os lados.
Não ficou bem estruturado.
O que escrevi é parcial e então podia apagá-lo...
Não está em mim
só o escrevi há bocado
Mas não vou
Vou lá
deixá
-lo
Deixá-lo vivo para que seja lido
ou para que seja ignorado
Ele que se faça à vida
porque se assemelha a ela
incompleto e parcial
parido pela emoção
não só razão 
nem tão só informação

Nasceu um texto mal formatado
que não era perfeito
ainda há bocado

25 de agosto de 2022

23 de agosto de 2022

Valência / Valencia

 

Visita a Valência, Espanha, o melhor

Um dos passatempos da visita a Valência acabou por ser colecionar os graffitis do David de limón. Já conhecia este mascarado de algum lado mas não sabia que o artista era de Valência nem o seu nome.

Só depois de ter reparado na repetição fui procurar informações e então comecei a tentar colecioná-los 😁. Sei que há muito mais mas estes foram os que me apareceram pelo caminho 😉🥰.

Aqui fica a coleção junto com três grafittis de que gostei muito, de outros artistas. O coração é de La Nena Wapa y Stool, o painel de tecido não sei e último da direita é da Julieta XLF. Muito mais havia lá mas fica para outra viagem.


11 de maio de 2022

Anfiguri no séc. XXI

 

Era não era
foi lançado na guerra
num mar que era negro por baixo da terra,
O urso berrava,
a cegonha gemia
e por cima pairavam as asas da águia,
que as lutas de poder são uma pandemia.
Por lá, nas batalhas, ele intervinha
com as unhas dos pés,
que armas não tinha.
Gritou pela NATO!
Chamaram-lhe pato.
Gritou pela União!
Obteve um pião.
Gritou pela Rússia,
Quiseram autópsia.
Num folheto da ONU conheceu a paz,
mas precisava de armas para ser capaz.
Da UE vinham chinas,
dos States afegãs
e entravam nas TVs a lançar avelãs.
Uma das pevides
bateu-lhe no olho
e na sua mente nasceu um piolho.
Não tinha Quitoso para se lavar
e pra ter liberdade tinha de finar.
Havia apenas outra solução:
limitar os partidos com opinião!
De runas no peito,
feito nacionalista,
pouco lhe importava
se o vissem fascista.
Chegou a carta do direito mundial:
“Rasputin era morto...
e Zelen por nascer.”
O que havia o moço então de fazer?
Com o ramo de Bétula agitou girassóis,
virou-se na cama
e puxou dos lençóis.
Quis contar carneiros e via oligarquias
mascaradas algumas de democracias.
Mas sem matar ninguém...
sentia vergonha
de deixar o urso montar na cegonha.
Atirou-lhes bombas,
acertou num artelho,
e escorreu-lhe o sangue
até ao joelho.

8 de maio de 2022

Desejo gelado


- "Meeeu Deeeus!"
Atirou o puto ao sol,
à bruta gritou na rua.

- "Meeeu Deeeus!"
Apoiando-se à parede
como que a fincar na pedra
o calor preso da fila,
enorme, corada de gente,
em frente da geladaria.

- "Meeeu Deeeus!"
Sem o cone na mão,
a derreter o tempo.

- "Meeeu Deeeus!
E se isto não é poesia
eu nada sei de expressão.

12 de abril de 2022

Vaitu


Cumpro-me se enfrentar o medo,
há estrategas na batalha dos Media,
e agir, apenas ser ou estar.

13 de março de 2022

Retrato repetitivo em geometrias de guerra (Perspetivas)


Vista explodida, sem paz
E...
Agora as mulheres vão
com crianças pela mão…
Só mulheres e crianças…
mais crianças e mulheres…
Distanciam-se os viveres
sob explosões e ameaças.
São as mães, as tias e avós,
filhos, sobrinhos e netos,
de ontem rasgaram afetos,
vão juntos, sentem-se sós.
Atrás das mulheres vão
as crianças pela mão,
atravessando as fronteiras
que as designam estrangeiras.
São diagonais de longe,
retas que atingem de perto
uma alma surda que range
o destino feito incerto.
Atrás das mulheres vão
mais mulheres e crianças
com crianças pela mão.
É o feminino em fila
uma infância posta em linha
de fuga. A profundidade
sem convergência não tinha
um horizonte e esperanças,
pois quando esta se afunila
persegue-se outra verdade.
Vista explodida, loquaz,
da ilusão que se desfaz.

Na ampulheta se escoam,
quem sabe se voltarão,
as crianças e as mulheres.
Pra trás, fica a outra metade,
olhos d'água, ansiedade.
São vivos ou já cadáveres?
Homens cravados na terra
improvisados na guerra.
Entre três pólos opostos
as armas, nervos e sustos.
Cravados na sua terra,
perspetiva de três pontos,
homens forçados à guerra.
Peões num jogo maior
de forças e do agressor.
Há pólos na horizontal
de grilhões e fel compostos
muitas omissões e apostas
que os forçam à vertical
para não quebrar as costas.
Homens compostos de guerra,
entre três pontos, arestas,
cruzados sobre a sua terra,
tornam-se nacionalistas.
É deles o contraplano
cujo corpo apara o dano
e da vista militar
vem medo do nuclear.
Visão explodida, eficaz,
em peças mais um país.

No plasma, o olho de peixe
remonta o lego das peças
em notícias ao segundo.
Faz heróis, destrói esperanças,
há mortos, explosões e fumo.
Dicotomias com pressa,
(o complexo que se lixe)!
tudo é pra mostrar ao mundo,
menos o que não interessa
ao seu clicbait de consumo.
E por entre as distorções
surgem os glitches e falhas
das bocas de alguns cabrões:
“Lá vem uma, lá vão duas,
refugiadas a chegar.
Uma é minha, outra é tua,
com fome hão-de aceitar.”
(- Vão de retro, seus canalhas!
Hienas do patriarcado,
que vos mirre e caia o nabo!)
Em mesas, várias nações
infladas fazem gravatas
ao direito que sobeja.
Querem armas e sanções,
triste paz que se planeja.
E com preços a subir
é muita ironia ouvir
que o problema é rimar
corrupção com adesão.
Todos temos de mudar.

Foi esta explosão mordaz?
Ou fratal de humanidade
inconseguida, incapaz?
Queria ver o reverso
diagrama de construção,
de aceitação do diverso.
Viver sem rivalidade
no gasto e organização,
vista explodida, quiçás,
apta pra alcançar à paz!

9 de fevereiro de 2022

Striptease


Aos poucos dispo as peças,
disposta a um striptease...
de fés que usei ao segundo
no tempo em que amava o mundo.
Mas podem hoje cair lestas,
falta tesão que as suporte.
Não são valores em crise,
são trapos velhos, má sorte.
Sigo o ritmo em striptease
p'ra que cada fé deslize
com os acordes da Pop.

Tiro o altruísmo primeiro.
Agito-o ao som frenético
de um egoísmo genético.
A empatia cai por inteiro
e jaz de estertor artístico
pois repudiar é valor
se a diferença se estranha
e o indivíduo se entranha.
Depois desenfio o amor
dos fios do tear místico.
Sai devagar mas compensa,
tráz a paz da indiferença.
Como há muitas verdades
vou-as destapando à vez
p'ra criar afinidades
no logro e desfaçatez.
Por fim rasgo-me a coragem
que ainda agora me cobria,
faz-me parecer selvagem,
é mais moderna a fobia.

Nua por ti, finalmente,
Alma a cru, para agradar,
Sem nada, mal-afamada,
Mundo que encaro de frente,
não te consigo aceitar!
Só não me sinto culpada
e vejo então o meu fracasso:
Ficou a inocência escondida,
por dentro, e trás no regaço
a roupa que foi despida.
Diz que a vista e vá à vida.


E eu coro, visto-me e vou.


09.02.2022



4 de fevereiro de 2022

Esfingimento

 

Nasço às vezes da Quimera
de sentido e união.
Neta de cobra e tufão,
gente absurda mas sincera.
Ao nascer vou colorida,
Pandora de caixa cheia,
mas surgem questões à vida
no real da caminhada
e vejo que estou travada.
É isso que desnorteia.

Nasço às vezes da Quimera,
irmã de quem me restringe,
sou bloqueada p'la Esfinge,
forçada a ficar à espera!
Ela ordena interrogações
E eu finjo, finjo em vão,
que controlo as emoções,
que sei respostas a dar,
ou que elas, se aguardar,
um dia me encontrarão.

Nasço às vezes da Quimera
e não sei o que lhe faça.
Por vezes acho-lhe graça,
outras, já me desespera.
Escritora esfingidora,
que não pode ser poeta,
esfinge tão completamente
as utopias que sente,
 em mitos questiona a dor
para ver se se liberta.
 

04.02.2022

5 de outubro de 2021

A Garota Não, Mundo do avesso

A Garota Não, Mundo do avesso, no YouTube 

A outra canção/texto desta Garota que me tocou imenso. 💓
 

A Garota Não, Canção sem final

 


A Garota Não, Canção sem final, no YouTube 

Um dos textos/músicas que mais senti este ano. Por isso fica aqui 💓💗

24 de maio de 2021

Ideia Peregrina


(Ideia) Peregrina
um dia agarrou-se aos pés e então foi.
(Ideia) Peregrina
por aceiros e veredas até à estrada
deixando provisória a sua morada.
(Ideia) Peregrina
encantada a sós, só pela intuição,
essa abertura ao ser, impulso que mói,
aceno à esperança a pedir direção.

(Ideia) Peregrina
sem saber de chegada a lugar algum.
(Ideia) Peregrina
ocaso das grades, rasgo de vontade
de desatar no espaço a profundidade.
(Ideia) Peregrina
lançada inocente ao caminho de alguém,
largando as fronteiras do lugar comum
atrás de horizontes que ficam além.

(Ideia) Peregrina
esquiço indefinido de uma emoção.
(Ideia) Peregrina
desnudada ao acaso do que encontrar,
grávida do tempo que nos faz medrar.
(Ideia) Peregrina
silêncio exposto a qualquer elemento,
um pé após outro, agarrada ao bordão,
sob o calor, a chuva, a força do vento.

(Ideia) Peregrina
enfrenta as bolhas e o resfolegar.
(Ideia) Peregrina
tacteia num mapa, a sua alegoria,
a explorar por dentro a própria bizarria.
Porque uma ideia (Oh Peregrina!)
pode acertar o passo, se for assumida,
ou virar-nos tortos de pernas ao ar.
Uma ideia cerceia e expande-te a vida.

20 de maio de 2021

Dimensões na distância







O rio move miniaturas do outro lado da margem, do outro lado da planura riscada pelas rotas dos barcos. Entre cá e lá pardais e um cuco são maiores que um camião mas menores que um barco à vela. Um casal de borboletas persegue-se e brinca perto de uma laranja onde o ar se senta. Nenhuma caberia nas janelas dos apartamentos e casas bidimensionais do postal de fundo.

Dimensões.
A àgua separa. Mas o rio une.
O rio estabelece a dimensão sem dar uma escala à distância que existe entre as duas margens. A distância está em muitos pormaiores entre margens.
Há tantas margens.
Há margens salgadas entre a África e a Europa, o próximo oriente e a Europa. Da Europa não se vêem as outras margens do mediterrâneo. O postal da margem africana ou do oriente médio é impresso em papel ou transmitido numa parede.
Fazia falta ver a dimensão da humanidade ondulada na outra margem. Assim, as borboletas, os pardais e os cucos pacíficos parecem mais urgentes. Tornam-se maiores do que o desespero de quem encara as àguas sem o horizonte visível e se atira na esperança invisível...
A distância deturpa a visão.
A distância não é só física.
Há aqui dimensões em falta.

12 de maio de 2021

Adivinha

 

Qual é coisa, qual é ela...
Que corre veloz se eu subo nela?

Quando vou para a escola
Ou se regresso a casa
Trepo-lhe às cavalitas 
E acelero na brasa.

A sua cor não importa
E nem se quer o feitio
com ela eu agarro o vento
Que me envolve macio.

No corropio das ruas 
Sinto-me num trampolim
Pedalo com toda a força
Sentadinha no selim.

Na magia das duas rodas
Os raios giram nos eixos
Hipnotizando as pessoas
E nas calçadas os seixos.

Gosto tanto de andar nela
Que faz de mim uma atleta
A razão desta adivinha
Que é a minha bicicleta.


P.s. Inspirado por uma menina Síria que não conheço mas que em breve vai receber uma bicicleta 😁



27 de março de 2021

Aspirador

      

         Aspira...
            Inspira o ar
            limpo e sem pó.
            Expira a cantar
            desfaz-te do nó.
            Um aspirador.
            Aspira a dor…
            daquilo que varreste
            para sob o tapete
            e do que encontraste,
            que ainda se repete.
            Aspira, 
            aspira a dor…
            Respira o ritmo
            da refundida emoção
            e remodela o ânimo
            da tua vibração.
            Aspira, 
            aspira a dor…
            que aderiu ao agora.
            Recolhe-a do interior
            e no final… 
            deita-a fora.

Trêmoa  27.03.21
 
Resposta de 2021 a um texto antigo de 1996 que revisitei... passaram quase 25 anos 
           
           Vassoura 

Varre…
Varre bem!
Que uma mulher
deve aprender a varrer.
Varre os lixos, as louças,
varre os laços.
Varre a cozinha, os cantos,
varre os cacos.
Varre os sentidos, as saudades,
varre os sonhos.
 
Varre tudo para debaixo do tapete.
Para um dia ao levantares as pontas
recordares a porcaria que juntaste!
                                                                        Trêmoa 21.10.96   

23 de fevereiro de 2021

Half Open is Closed (Trunks of old and dark Spirits IV)


In a garden of wonder 
I walked on a boring day,
All dressed up in the openness 
of wanting to play.
I entered the garden gate 
and near an oak tree,
a wooden door was half open 
to my curiosity.
I was craving adventures, 
so what was I to do?
I took a sneak-peak 
and then I heard you:
“You cannot come in, 
because the entry is stuck.”
- You said from behind 
of your own bad luck.
 
Since you didn’t want me in, 
I was ready to go.
But each time I was going 
you called me, pronto.
You didn’t want to leave either, 
which was bizarre.
Thus I stayed, indecisive, 
not straying too far,
intrigued by the mystery
of what was inside,
of the voice that would speak 
and go into hide.
Suddenly I freed my fantasy, 
'cause it could get in,
flying through the door, 
exploring by imagining.
 
It then circled around, 
saw truth and came out,
telling me that the door 
was only shut by doubt.
There was nothing else more, 
no line of poetry,
just a man blocking the door 
and then calling in.
The reasons he holds dear,
I’m not going to pry,
But I pick up my struff 
and just tell this goodbye.
I feel curiosity rushing, 
there's plenty more to see
along this fully open space 
that is all around me.

22 de fevereiro de 2021

Curiosidade

Curioso...

Li que os blogues estão fora de moda e que já não vale a pena ter um... Subitamente fiquei com mais vontade de manter este e de lhe dar novo ânimo.

Não sei se é gosto arqueológico ou só a mania de ser do contra mas isso também não interessa muito 😜

4 de fevereiro de 2021

Pensamento único


Encarcerados por vontade própria

numa idade democrática, de medo.

Cumpridores por imposição, da culpa.

Reduzidos ao pensamento único,

que sem contraditório é contradição.

 

"Cada um se recolha à cama que lhe deram"

e que a ajeite com paus e pedras

para expulsar o microcosmos com lixívia.

Há mármores, calhaus rolados e areia,

traves de carvalho, ramos e gravetos.

 

Só as emoções poderiam ser pessoais.

Podia ser tempo de reencontrar a pessoa

se não nos entupissem de complexos

como num foi gras de funil mediatizado

enquanto engordamos de totalitarismo.

 

 

04.02.2021

3 de fevereiro de 2021

2 de fevereiro de 2021

Dr. Frankenstein woke my heart (Trunks of old and dark Spirits III)


Deceased was my heart, many moons ago...

But now, again, it pumps blood at me.

Some Frankenstein hit its flesh,

an arrow crossed it from death.

Infatuation, electricity!

 

Deceased was it not, now I feel,

though it was buried and quiet within.

But from the Tomb it came back,

Monster drummer, cardiac,

awakening all of my skin.

 

Alive! - It screams now – Not alone!

Bruised and scarred, it looks scary.

Old emotions pumping pain,

no trained elasticity,

impossible to restrain.

 

The Frankenstein dude disappeared,

            unknowing of his own creation.

But the hearth keeps up its beat.

Science has no explanation.

What do I do with it?

 

Emotions running, fight and flight mode.

In the story the Monster then dies.

But I don’t wanna kill it anew.

It is awaken, it’s here to rise!

Just let me embrace you

...my hearth


26 de janeiro de 2021

Às vezes penso que me devia "casar"...

 

Às vezes penso que me devia "casar"... (políticamente falando, entendamo-nos😉)
A família alargada já a tenho há muito. Descobri-a, ela descobriu-me. Vamo-nos entendendo sobre o que gostariamos que venha a ser o futuro. Mas depois... depois o "tipo" certo, pode ser muito sedutor mas tem sempre qualquer coisa de incomodativo, imperfeito, de desagradável. Às vezes até é mesmo chato, repetitivo e incongruente . Estes "tipos" humanos, têm tendência para ser humanos, é uma chatice que não atinge os ideiais 😜.
Durante as sondagens pelo "tipo" certo fui-me habituando à liberdade de pensar e ver por fora, sem compromissos. É muito libertador não ter compromissos, permite ter uma boa "amplitude" de argumentos e experiências.
Normalmente estou muito confortável com o facto de ir decidindo não me "casar". Escolho os ângulos para onde quero olhar, opino à minha vontade e acho que às vezes algumas pessoas até apreciam que não me tenha "casado" por isso mesmo. Não há cá "maridos" a meter a colher. Como olho para muitos lados também acabo por ter muito para contar e isso tem algum valor.
Mas depois há momentos como este... em que observo a fragilidade de algumas estruturas à minha volta de que gosto, em que incompreendo o mundo e as escolhas que outros fazem, em que gostava de conversar muito e muito mais até desvendar melhores formas de ajudar a conduzir o mundo a um sítio que me pareça melhor.
Estes são momentos vulneráveis, em que o que aprendi da história faz nascer alguns receios, em que o que aprendi da vida me faz nascer outros. Nem se quer vejo só ideologias que se chocam, é isso e são pulsões humanas, fragilidades ou deformações do que gostaria que fosse o futuro...
Nestes momentos olho para as mãos solteiras (sozinhas não, só sem anel) e penso: o que posso fazer mais? Se calhar devia tentar outra coisa diferente? Será que me devia "casar"?
Estes são momentos vulneráveis e a vulnerabilidade esconde-se.
Ou então não. Esconder o quê de quem, se nem se quer estou "casada" 😜? Se há uma vantagem em estar "solteira" é poder dizer qualquer seriedade ou brincadeira com a mesma coragem e cara lavada (ou suja). Além disso... mais escondidos do que já andamos se calhar é melhor não.
No entretanto continuo a pensar, a pensar... e como diz o ditado "quem pensa não casa e quem casa não pensa"...
Há um outro ditado que diz "a pensar morreu um burro" mas é melhor esquecer esse...

21 de janeiro de 2021

Conversa

                                        
Queria conversa...
Mas ninguém ma deu
e tinha uma horinha para conversar.
 
Na segunda-feira fui daqui práli,
aterrei na terça como Prometeu
e meti a quarta só para trabalhar.
Na quinta o rosário foi que nem dormi
e na sexta-feira faltou a paciência.
Só que na segunda encontrei o João
e nem tempo tive para o escutar.
A Teresa ligou-me, após uma ausência,
e não atendi, fiquei com a gravação.
O Luís e a Rosa queriam discutir,
esquivei-me deles, nem liguei à mãe.
Só à noite, um pouco, dei certa atenção
aos emails e redes pra descontrair.
Fraca companhia fui eu para alguém.
 
Mas apesar disso queria conversa!
Queria conversa que ninguém me deu
e tinha uma horinha para conversar...
Olhei para mim e saquei da caneta:
"Ai tu queres conversa? Então dou-ta eu!"

By: Ela própria num dia em que queria conversa

17 de abril de 2020

O X marca o tesouro

       “Oh diabo!” Como é que tinha chegado àquela situação?

Uma cantilena antiga ecoou-lhe na memória: “Chico-penico! Chico-penico!”

… Vinha do recreio e das ruas, de quando os outros putos queriam vê-lo espumar. Chiquinho era um miúdo franzino, com uma força na guelra que só mais tarde lhe chegaria aos braços. Dava gozo espicaçá-lo!

Só que, no salto da idade, o “Chico-penico” cresceu em “Xicão”, adotando um X, mais estiloso. Impulsivo, chamavam-no para impor respeito e apartar confusões. Por isso vivera muitas, tantas que o corpo parecia um álbum fotográfico, acumulado de marcas. Mas o álbum foi-se esgotando, como uma caderneta de cromos gasta. 

Assim, sem confessar, ficou agradecido quando o puto “Marquito” por acaso cresceu para se chamar “Marcão” e ele pode finalmente passar a ser o “Sr. Francisco”.

O trabalho que o deixava ser “Sr. Francisco” surgira como tudo na vida. Alguém precisava de qualquer coisa e ele reagia, sem pensar. 

Francisco tinha jeito para motas, souberam disso e chamaram-no. Depois aprendeu o resto. Só a partir de então tomara a vida nas mãos: escolhera uma casa, escolhera a mulher, escolhera a igreja, a paz e o sossego. Por consequência chegaram-lhe contas, filhos, sermões, achaques e dores nas costas.

Agora porém, à saída da oficina, espantava-se com a visão da dianteira do carro, fumegante, espetada na lateral do automóvel de um cliente. 

O tipo tinha-o xingado de “Xico-esperto”… e Francisco avaliava-se pela primeira vez: “Oh diabo! Seria possível alguém mudar? Ou só mudavam as circunstâncias e aquilo que nos deixavam ser?”


20 de julho de 2019

Oh! Uma ode à falta de inspiração.

Oh!

Uma ode à falta de inspiração.

Era uma vez… um nariz

narinas abertas e o aroma

um café com adoçante

Bica na bandeja

Baloiça a Bica

Baloiça… Balancé… no baile

O baloiço da bica… é impossível sem derramar café.

Bicos de pássaros

bicadas e beijos, abraços

Breves… Borboletas

Um… bi(li)ca(l)

De umbigo em piruetas

e enquanto fui ali… não estava cá

Romeira, romeira… onde andas tu?

À rasca, arisca… (à)risca

Embate!

Decidi começar-te cheia de intenções e reticências!

Mas são tão díspares que hoje ficarei apenas a olhar-te.

Aí o raio da multiplicidade!

O que é que se faz com

Truz… truz e mais onomatopeias?

Bato à porta

da casinha de bonecas

Quem é?

Diz...

Farsa!

Um bom nome para começar um blog em noite de carnaval


23.02.2009, Coimbra

12 de setembro de 2018

Entrelinhas

Gosto tanto de ti!

Gosto tanto de ti,

Gosto tanto de ti.

Ainda gosto tanto de ti

que só o tempo me pode acalmar…

Gosto tanto de ti,

só o tempo deixará passar…

Gosto tanto de ti,

só o tempo deixará…

Gosto tanto de ti,

só o tempo…

Gosto tanto de ti.

Só…

Gosto tanto de ti

…

 

Aguardo o dia em que o tempo

já escorreu das entrelinhas.

O dia em que serenamente

ainda goste tanto de ti

...

mas aí.

 

12.09.2018

1 de setembro de 2017

Chico-espertos do Catrino


Lá vai um, lá vão dois,
três Chico-espertos a passar.
Um travou-te, outro tramou-te
e o outro está-te a roubar.

Já basta de Chico-espertos
são uma praga Nacional.
É urgente abrir a caça
ao infestante animal!
Discretos, como a carraça,
assumem muitos formatos,
e ao sair dos buracos
de todos fazem pirraça
por entre ardis e boatos.

Com pressa, a ziguezaguear
o esperto faz-se à estrada
a acelerar, prego a fundo,
não espera, que se enfada,
acha que é dono do mundo!
Mas caem luzes vermelhas,
ouvem-se os pneus a chiar.
“Estou rodeado de aselhas!”
- começa o Chico a gritar.

Lá vai um, lá vão dois,
três Chico-espertos a passar.
Um travou-te, outro tramou-te
e o outro está-te a roubar.

Autoditada na lábia
de uma moral muito dúbia,
o Chico adere ao partido
para cultivar “amizades”.
Depois aguarda o devido
curso, cargo ou facilidades.
Nascido de olho aberto
para a lei do menor esforço
desconhece o que é remorso.

Acha estranho que alguém
não faça o que mais convém
por ter noção da justiça.
- “Esse aí tem é preguiça”!
Porque ele está bem de manha,
da cobra até vende a banha!
Mas por entre os favorzinhos
e os malabares do umbigo,
não se lhe conta um amigo.

Lá vai um, lá vão dois,
Três Chico-espertos a passar.
Um travou-te, outro tramou-te
e o outro está-te a roubar.

Um gestorzinho ambicioso
perito da arte estatística
forjou um parecer danoso
sem se achar um vigarista.
Este esperto é perigoso,
faz dos números joguete
e distorce a realidade.
Mas desde que se abolete,
quem saberá a verdade?

Tiveste azar Chico-esperto,
alguém topou a tua mão.
“Os dados não batem certo!
Este gajo é um aldrabão!”
Podes ficar boquiaberto.
Nem todo o teu ar janota
as luvas ou o palavreado
ocultaram a batota.
Estás aqui, estás enjaulado! 

Lá vai um, lá vão dois,
três Chico-espertos a passar.
Um travou-te, outro tramou-te
e o outro está-te a roubar.

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